O Dia em que os Tesouros do Daomé Voltaram para Casa
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O Dia em que os Tesouros do Daomé Voltaram para Casa

> "Quando as vinte e seis peças saíram de Paris em novembro de 2021, o ministro da cultura do Benim foi pessoalmente recebê-las no aeroporto de Cotonou. Era uma delegação diplomática e uma restituição histórica. Era também, silenciosamente, a abertura de um debate que o mercado de arte ainda está aprendendo a ter.

o dia 9 de novembro de 2021, um avião pousou em Cotonou, no Benim, carregando 26 peças que tinham saído do país 129 anos antes. Os Tesouros Reais do Daomé — estátuas animistas, tronos, objetos cerimoniais da corte do rei Béhanzin — foram tomados pelo Exército francês durante a conquista colonial de 1892 e desde então permaneceram no Musée du Quai Branly, em Paris, como parte do acervo permanente.

A devolução não foi ato espontâneo. Foi resultado de uma lei aprovada pelo Parlamento francês em dezembro de 2020 — lei que o próprio presidente Emmanuel Macron prometera em 2017, depois que um relatório encomendado por ele concluiu que a França deveria devolver até 90 mil objetos africanos que estavam em seus museus. Vinte e seis peças foram o começo.

Na cerimônia de recepção em Cotonou, o ministro da cultura do Benim, Jean-Michel Abimbola, disse: "Esses objetos são mais do que objetos. São a encarnação de nossa história, nossa identidade, nossa dignidade."

Essa frase é a chave para entender o que está acontecendo no mercado de arte africana.

O que o mercado ocidental chamava de "arte primitiva"

Em 1907, Picasso visitou o Musée du Trocadéro em Paris — antecessor do Quai Branly — e viu pela primeira vez máscaras e figuras de civilizações africanas que o museu classificava como etnografia. O que ele reconheceu na geometria das máscaras Fang do Gabão e na distorção expressiva das figuras Baoulé da Costa do Marfim foi suficiente para mudar a pintura ocidental: Les Demoiselles d'Avignon, pintado naquele ano, incorpora o vocabulário visual africano de forma que ainda é discutida.

O paradoxo que esse episódio revela é estrutural: a arte africana era sofisticada o bastante para transformar Picasso, mas continuou sendo negociada no mercado ocidental como "art nègre" — categoria que reconhecia a habilidade técnica enquanto negava a intenção artística e o contexto cultural. Durante décadas, uma máscara Fang que havia informado o cubismo valia uma fração do trabalho cubista que ela tornara possível.

Essa assimetria de valor não era acidente. Era consequência direta de como os objetos africanos entraram no mercado ocidental: como espólio colonial, como curiosidades etnográficas, como "achados" de viajantes e missionários — nunca como aquisições de uma tradição artística com sua própria hierarquia de valor, seus próprios critérios de excelência, seu próprio público original.

O que está mudando — e por quê

Os Tesouros do Daomé não são caso isolado. Em agosto de 2022, a Alemanha devolveu ao governo nigeriano as primeiras 20 peças dos Bronzes de Benin — esculturas em latão, bronze e marfim produzidas pela Corte do Benim entre os séculos XIII e XIX, tomadas pelo Exército britânico durante a "Punitive Expedition" de 1897. O acordo prevê a devolução de pelo menos 1.100 peças distribuídas entre museus alemães.

O British Museum ainda resiste às devoluções dos Bronzes que possui — aproximadamente 900 peças, a maior coleção fora da Nigéria. Mas a posição britânica está cada vez mais isolada no debate internacional.

Essas devoluções estão alterando o mercado de várias formas simultâneas. A primeira é a questão de proveniência: antes, proveniência em arte africana era questão marginal nas transações de mercado. Agora, qualquer instituição ou colecionador que compra arte africana histórica no mercado secundário está fazendo uma aposta sobre onde a linha vai ser traçada. Isso criou um mercado mais exigente com documentação.

A segunda mudança é a participação de compradores africanos. Museus nacionais do Senegal, de Gana, da Nigéria e do Quênia estão crescentemente ativos no mercado internacional — não apenas em disputas de devolução, mas em aquisições diretas. Quando um comprador nigeriano licita num leilão em Paris por um objeto de cultura iorubá, a narrativa sobre quem decide o valor do objeto começa a mudar.

O problema que a restituição não resolve

Há uma tensão no argumento da restituição que raramente é dita com clareza: muitos dos objetos devolvidos ou que o mercado debate são peças que saíram de seus contextos originais há 80, 100, 130 anos. O contexto ritual específico que os tornava o que eram — a comunidade, o sistema de crenças, a função social — pode não existir mais na forma que os produzia.

Uma máscara Dan comprada em Paris nos anos 1930 e devolvida ao acervo de Abidjan em 2030 é o mesmo objeto que saiu de uma aldeia do interior do que é hoje a Costa do Marfim em 1928? A matéria é a mesma. O contexto não.

O que a restituição pode fazer — e isso não é pouco — é reconstituir a história de custódia. Tornar visível a sequência de mãos por que o objeto passou, as decisões que foram tomadas sobre ele, os sistemas de valor que o enquadraram em cada período. Para um objeto de arte africana com boa documentação de proveniência, essa história de custódia é ela mesma parte do que o objeto é.

Para o colecionador, isso é relevante de forma direta: a diferença entre uma peça com proveniência documentada (incluindo registro de saída anterior a 1970, data adotada pela Convenção da UNESCO como divisor em matéria de arte cultural) e uma peça sem documentação é crescentemente a diferença entre um ativo e um risco.

Para o colecionador

Arte africana clássica com proveniência documentada — especialmente pré-1970 — é o standard contemporâneo que o mercado sério está adotando. O colecionador responsável trabalha com dealers que podem oferecer documentação específica, não apenas a afirmação genérica de que a peça é antiga.

Para colecionadores que querem exposição ao continente sem as complexidades de proveniência histórica, a cena contemporânea africana oferece o mercado mais ativo da última década — Lagos, Nairobi, Dakar e Joanesburgo estão produzindo trabalhos de alcance internacional, com estrutura de mercado mais clara e crescente visibilidade em feiras como Art X Lagos e 1-54.

Em ambos os casos, o princípio é o mesmo que os 26 tesouros do Daomé tornaram visible: objetos culturais africanos têm, como o ministro Abimbola disse, mais do que valor de mercado. Têm história, identidade, dignidade. A tarefa do colecionador sério é ser guardião dessa narrativa — não apesar dela, mas por causa dela.

Perguntas Frequentes

O que são os Bronzes de Benin e por que são o caso central do debate sobre restituição? Os chamados "Bronzes" — na verdade um conjunto de placas e esculturas em latão, bronze e marfim — foram produzidos pela Corte do Benim (atual Nigéria) entre os séculos XIII e XIX e são a tradição de metal fundido de maior sofisticação documentada da África sub-saariana. Em 1897, o Exército britânico tomou aproximadamente 3.000 peças durante a "Punitive Expedition" que destruiu a capital do Benim. As peças foram dispersas para museus e colecionadores europeus. O caso é paradigmático porque a história de aquisição é completamente documentada — não há ambiguidade sobre como as peças saíram do país.

O standard de "pré-1970" é suficiente para garantir a legitimidade de uma aquisição? A Convenção da UNESCO de 1970 é o referencial adotado pela maioria dos museus e pelo mercado formal. Uma peça que pode ser documentada como estando fora de seu país de origem antes de 1970 tem status mais claro em relação a convenções internacionais. Mas isso não elimina todas as questões: peças que saíram de seus países de origem como parte do colonialismo do século XIX, muito antes de 1970, ainda são alvo de disputas de restituição. Proveniência documentada é necessária; não é sempre suficiente.

Como o mercado de arte contemporânea africana se relaciona com o de arte histórica? Os dois mercados são distintos mas interconectados. O boom de visibilidade de artistas africanos contemporâneos — El Anatsui, Njideka Akunyili Crosby, Kudzanai-Violet Hwami — criou uma geração de colecionadores interessados no continente que também começa a olhar para arte histórica africana com olhos diferentes dos compradores formados no antigo enquadramento de "arte primitiva". A valorização vem de contextos diferentes, mas ambas se beneficiam da mesma mudança de enquadramento cultural.

Referências de leitura

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DominionArts Editorial

29 de maio de 2026